Baru, uma castanha do Cerrado, atrai chefs e consumidores

Por Maria da Paz Trefaut – Redação Valor Econômico

Proveniente do Cerrado, a castanha de baru tem chamado a atenção de consumidores e varejistas na cidade de São Paulo, em especial dentre aqueles que valorizam sabores únicos brasileiros. Além de fazer parte do cardápio de vários chefs, ela está à venda em grandes cadeias de supermercados como Walmart e Pão de Açúcar, nas lojas da rede Mundo Verde, e em empórios sofisticados como a paulista Casa Santa Luzia.

Embora não existam dados para quantificar seu mercado, a demanda do produto tem crescido constantemente, de forma mais acentuada nos últimos dois anos.

A castanha de baru também está na internet, onde as vendas também crescem. “No início, só nós oferecíamos castanha de baru on-line, agora há outros ‘players’ na concorrência”, diz Ana Maria Cintra, que é sócia com o marido da Biomarket. A Biomarket comercializa cerca de 50 quilos por mês para todo o Brasil. Um pacote de 150 gramas é vendido a R$ 15.

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Ana Maria Cintra, da Biomarket: “Só nós oferecíamos castanha de baru on-line, agora há outros ‘players’ na concorrência”

A clientela é composta por um público que aposta na alimentação saudável e a usa como complemento nutricional – caso também da castanha do Brasil (mais conhecida como do Pará) e da de caju.

A baru costuma ser consumida torrada, como aperitivo, e é tão crocante quanto as outras duas, mas menor e com um formato diferente, que lembra o caroço de uma azeitona. A casca é castanha escura, se solta facilmente depois de torrada, e o miolo é bege. O sabor costuma ser associado ao amendoim, ao cacau e ao café.

O baruzeiro é uma árvore grande, frondosa, que foi muito derrubada no país para uso da madeira na construção civil e naval. Antigamente a castanha não chegava ao mercado: era desprezada ou utilizada para fazer paçoca. Há alguns anos, quando começou a ser apresentada ao público fora do Cerrado, muitas vezes vinha torrada demais ou crua demais, o que dificultou sua aceitação.

“Quem teve uma má impressão, deve experimentar novamente”, diz Ana Maria. “O mercado amadureceu e foi feito um trabalho junto aos produtores para mostrar a importância da torra correta, da seleção e da qualidade. Hoje há ótimos fornecedores”.

Como costuma acontecer de tempos em tempos, certos produtos ganham fama como panaceia para todos os males. Da castanha de baru já se diz que baixa o colesterol e que emagrece. Nada disso está provado.

“Há muito folclore sobre ela e pouco desenvolvimento produtivo”, alerta Edwin Montenegro, diretor da Divisão de Nozes e Castanhas, do Departamento do Agronegócio da Fiesp. Ele explica que a baru é, em geral, coletada por pessoas no meio do pasto, de forma artesanal.

A produção mais expressiva vem do Empório do Cerrado, marca que pertence à Coopcerrado – cooperativa que forma a Rede de Comercialização Solidária de Agricultores Familiares e Extrativistas do Cerrado. Em seu complexo industrial, em Goiânia, a cooperativa processa vários produtos à base de baru. A produção anual gira em torno de 25 toneladas de castanha de baru, 390 toneladas de biscoitos, 10 toneladas de granola e 13 toneladas de barras de cereais.

Alguns empórios paulistanos, como o mercadinho do restaurante Jacarandá, já venderam o produto, mas por falta de constância no fornecimento não o oferecem sempre. “Comprávamos da ONG Central do Cerrado, sempre com alguma dificuldade. O produto é caro, mas excelente: vale cada centavo”, diz Ana Massochi, proprietária do Jacarandá.

Na Casa Santa Luzia, onde é vendida há dois anos, a baru custa R$ 121 o quilo e pode ser encontrada já embalada em potinhos de 200 e 90 gramas.

Chefs que se dedicam à culinária brasileira têm utilizado cada vez mais o ingrediente. Um deles é Fabio Vieira, do restaurante paulistano Micaela. Ele usa baru num tira-gosto feito com tapioca e queijo grana padano, e está desenvolvendo um pudim com a castanha que, em breve, deve estrear no cardápio.

“Estou sempre em busca de novos sabores e gosto de apresentar coisas do Brasil que as pessoas, normalmente, não têm acesso. Fico contente quando dizem: ‘nunca comi isso’.” Mas, no fundo, tanto ele quanto os outros sabem que a baru só será verdadeiramente valorizada quando for descoberta pelos estrangeiros.

Fonte: Valor Econômico

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